sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O Pai dos Burros - Humberto Werneck


Ao longo de mais de três décadas o jornalista e escritor Humberto Werneck alimentou um hábito: o de juntar frases prontas, aquelas que todo mundo conhece e repete, os famosos lugares-comuns. Anotava em qualquer coisa que estivesse por perto, de papel de pão a maço de cigarro, e guardava tudo em um envelope.
O tempo foi passando e a coleção de frases foi crescendo muito, até que virou um livro: Pai dos Burros - Dicionário de lugares-comuns e frases feitas.
Um apanhado das frases mais repetidas, vale a diversão de ler aquelas expressões já bem batidas e procurar aquelas que nós mesmo usamos sempre. Eu, por exemplo, acabei rindo ao ler "lépido e fagueiro", "reza a lenda" e "recolher-se a sua insignificância", frases que eu uso com certa frequência.
Admito que achei que as expressões, ao menos algumas delas, viessem acompanhadas de explicações ou curiosidades sobre o surgimento ou significado das frases, mas trata-se apenas de uma compilação, o que me decepcionou levemente. Mas nada que diminua a graça do livro. É interessante, leve e rápido de ler.

3 estrelas

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Carta ao Pai - Franz Kafka

Para quem está esperando uma escrita fantástica e insetos, pode esquecer. No entanto, como é característico de Kafka, a frieza, o detalhamento e a densidade emocional estão bem presentes.
Esta obra é, como o próprio título diz, uma carta de Franz Kafka destinada a seu pai, Hermann Kafka. Apesar de escrita, reescrita e revisada inúmeras vezes, a carta nunca foi enviada e, como grande parte de sua obra, foi publicada postumamente.
A carta é uma espécie de acerto de contas com o pai. Nela, Kafka explicita todas suas dores. Explica sua relação com seu pai desde sua infância até o momento em que escrevia, deixando bem clara a postura dominadora, arrogante e egoísta de Hermann Kafka e como o relacionamento entre pai e filhos foi sempre tenso. Fazendo uma análise de si mesmo, Franz Kafka indica que a opressão da figura forte e auto-suficiente do pai foi a causa da sua personalidade insegura e frágil, e consequentemente, todos os problemas e dificuldades causadas por sua introversão.
Mesmo com toda a emoção e sentimentos, a carta não é uma acusação nem tem tom de vingança ou repúdio, como seria de se esperar. É mais como uma divisão de culpas e responsabilidades, como se o autor quisesse deixar tudo dito e explicado, nada guardado. Simplesmente acertar tudo.
De certa forma, me senti como se eu fosse uma intrusa lendo aquela carta de um filho destinada a um pai. Como se eu não devesse ler aquilo, aqueles sentimentos que estavam expostos ali. Como se eu estivesse me intrometendo em uma história com a qual eu não tinha nada a ver, invadindo a privacidade dos dois. Mas essa sensação logo passou, e o que ficou foi a boa impressão sobre a escrita de Kafka, sobre os sentimentos expostos e, sobretudo, sobre a coragem para escrever aquilo, coragem que ele acreditava não ter.

4 estrelas

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Pantaleão e as Visitadoras - Mario Vargas Llosa


Sou meio suspeita para falar de qualquer livro de Mario Vargas Llosa. Meio não. Muito. Não posso dizer que tenho um autor preferido especificamente, mas tenho alguns autores preferidos e Vargas Llosa é definitivamente um deles. Para mim, qualquer livro dele é automaticamente muito bom e Pantaleão e as Visitadoras não é diferente.
O Pantaleão do título é o capitão Pantaleão Pantoja. Pantoja, ou Panta, como o chamam a mãe e a esposa, é membro do exército peruano apaixonado pelas forças armadas. Graças à sua disciplina e extrema dedicação, o capitão foi encarregado de desenvolver e gerir um projeto especial e confidencial: o serviço de visitadoras.
A soma do calor e umidade da selva com a falta de mulheres levou os soldados a cometerem uma série de estupros, atacando índias, mulheres de pescadores e moradoras de cidades próximas. Para resolver esse problema o exército idealizou o serviço de visitadoras, levando prostitutas até os soldados para aplacar seus ânimos.
Para manter o maior grau de confidencialidade possível, Pantoja deve se vestir como civil, não deixar ninguém desconfiar que seja membro do exército e esconder sua missão até mesmo da mãe e da esposa.
Enquanto o serviço de visitadoras prospera graças ao capitão (ganhando até mesmo o apelido de Pantolândia por parte da população horrorizada), uma seita religiosa ganha cada vez mais força, realizando sacrifícios animais e humanos, criando mártires e ocupando a polícia e o exército.
Como eu já disse no começo, eu sou bem suspeita para falar do autor. Para mim, não é fácil dizer o que é mais incrível no livro. Grande parte dele é contada através de memorandos, relatórios e cartas entre os oficiais peruanos. A história tem acontecimentos tão escrachados e caricatos que, de tão estranhos, acabam sendo completamente críveis. Além disso, Mario Vargas Llosa tem um jeito único e fantástico de escrever: em um mesmo parágrafo cenas são contadas ao mesmo tempo, histórias e personagens se cruzam e se misturam, pensamentos e falas são escritos juntos, a ligação espaço-tempo é quebrada a todo instante. A princípio, a leitura parece confusa e se demora um tempo para entender, mas uma vez que cai a ficha e a gente percebe como funciona a escrita de Vargas Llosa, tudo fica maravilhoso.
Vale lembrar que Mario Vargas Llosa ganhou o Nobel de Literatura em 2010 (antes tarde do que nunca), mais um motivo para as pessoas que precisavam de algum estímulo para ler alguma obra dele.
Definitivamente, Mario Vargas Llosa e seu Pantaleão e as Visitadoras merecem 5 estrelas!
5 estrelas